Análise: a performance fraca de Alckmin no JN expõe uma crise aguda de identidade na candidatura tucana

Geraldo Alckmin precisa, desesperadamente e o quanto antes,  de uma vitória política. De um fato eleitoral que demonstre sua viabilidade como candidato. A entrevista ao “Jornal Nacional” de ontem era uma grande oportunidade para isso. Era. Não foi.

Em termos estratégicos, Alckmin precisava usar a entrevista ao JN para se reposicionar – ou se posicionar pela primeira vez. Até agora, o candidato, ao contrário de Lula e de Bolsonaro, não tem uma mensagem, algo que diga, racional e emocionalmente, ao eleitor por que votar nele. Apesar dos fortes apoios políticos, Alckmin ainda é um candidato em busca de uma candidatura. Qual a visão de país, afinal, que ele representa? O que ele quer para o Brasil?

Por oscilar entre 5% e 8%, rebaixando-se de um candidato de primeira linha para um de terceiro escalão, Alckmin não pode mais errar. Mais do que isso: tem quer acertar incessantemente – e torcer para que seus adversários, em especial Bolsonaro, errem bastante.

Por ocupar essa incômoda posição e em virtude dos objetivos estratégicos exigidos por ela, Alckmin foi mal na entrevista. Convenhamos que o formato dela não favorece, de modo algum, a exposição tranquila de ideias e propostas. É uma entrevista de embate, na qual os apresentadores falam bastante e interrompem amiúde o entrevistado.

Mas esse é o formato para todos os candidatos. E, como disse, Alckmin precisa ganhar a cada fato – precisa que cada fato seja uma vitória. Viu-se, porém, um Alckmin manso e evasivo diante da ofensiva dos entrevistadores. Parecia despreparado para a difícil tarefa que, para um bom político, transcorre com naturalidade: ouvir o que não se quer e responder o que se quer, de modo a comunicar o que se bem entende. Trata-se de uma habilidade técnica que Alckmin parece não conseguir dominar – ou talvez não queira.

Em resumo, Alckmin:

  • Perdeu-se na defensiva: seja na pergunta sobre o subordinado suspeito de corrupção, seja na pergunta sobre o PCC, seja na pergunta sobre déficit habitacional, ele aceitou responder ao que lhe foi perguntado. Isso poderia ser uma virtude – aceitar o diálogo e enfrentar controvérsias. O problema é menos o que Alckmin tem a dizer; e mais de que modo ele diz o que quer. Não reconhece erros ou limitações, o que poderia provocar empatia no eleitor. Defende-se longamente e pelo caminho dos jargões tecnocráticos da administração pública – “junta de arbitragem”, “volume de rochas”, “OS”, “RDD”, “CDHU”. O tom monocórdio e o uso abusivo da terminologia burocrática conduzem o eleitor ao torpor. Mesmo que haja substância no que se diz, exige-se um grande esforço de quem assiste.

 

  • Parecia fora de lugar: em muitos momentos, Alckmin parecia estar concorrendo, mais uma vez, ao governo de São Paulo, não à Presidência da República. Isso ficou claro nas constantes referências, até com nomes, a obras e programas de sua gestão em São Paulo. Ele não usou essas referências, de modo amplo, para dizer, por exemplo, de que modo o que fez em São Paulo pode ser feito no plano nacional.

 

  • Indicou ainda não ter uma mensagem: no trecho final, em que diz qual o Brasil quer caso seja eleito, Alckmin saiu-se com um discurso anódino, centrando-se na palavra “oportunidade”. Num país que implora por menos corrupção e mais segurança, além de emprego e renda, falar em “oportunidade” remete, no melhor dos cenários, a qualquer eleição – menos a de 2018.

 

Há, claramente, uma crise de identidade na candidatura de Alckmin. Ele não pode defender a ética e a Lava Jato ao mesmo tempo em que defende a aliança com o centrão e aliados como Aécio Neves e Eduardo Azeredo. Não pode ser o candidato do novo com esse discurso e as alianças que formou. Se quer ser o candidato das reformas, precisa falar mais de reformas – ser o candidato do possível, da realidade política. Ser esse candidato, no entanto, dificilmente o conduzirá ao segundo turno sem que haja uma forte… reforma do seu discurso – da sua mensagem.

Alckmin terá 5 minutos e meio de tempo de TV. É um ativo formidável. Sem uma mensagem clara e eficiente, contudo, isso não mudará o jogo. Se o Alckmin do tempo de TV for o Alckmin do JN, o PSDB terá um problemaço.

 

 

 

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